quarta-feira, 11 de maio de 2016

A ESCOLA ABANDONOU AS PERGUNTAS


A ESCOLA ABANDONOU AS PERGUNTAS

            Na aula presencial do Seminário Integrador III, no curso de Pedagogia à Distância da UFRGS, refletíamos sobre a ausência de perguntas na escola. Segundo Freire (1985), o conhecimento começa pela pergunta, começa pela curiosidade. O professor dá as respostas sem ao menos terem perguntado nada.
Os professores não se interessam pelas perguntas que os alunos têm a fazer, pela sua curiosidade. Com seu poder e autoridade, elenca o que é importante de acordo com o currículo pré-estabelecido e “joga” sobre o aluno, num movimento unilateral que só vai. O professor é que fala, é que dá a aula, que dá a prova, que dá as perguntas e que finalmente dá a nota.
Uma de nossas colegas, humildemente e admitindo certa vergonha, compartilhou conosco uma experiência rara de sala de aula: Por motivos de saúde, ela teve que substituir uma colega que trabalhava com um conteúdo que ela desconhecia. A princípio, ficou aflita, perdeu sono, tentou pesquisar, mas finalmente e com muito receio do que poderia acontecer, admitiu aos alunos que não dominava o conteúdo e propôs a eles que aprendessem juntos. Revelou que foi uma experiência fantástica, pois os alunos se sentiram desafiados, pesquisaram e aprenderam todos juntos: professora e alunos.  Quando a professora titular, retornou e fez uma avaliação do conteúdo, ficou surpresa com os ótimos resultados apresentados por aquela turma e foi perguntar para ela o que tinha feito para que os alunos se saíssem tão bem. A colega revelou que não tinha feito nada, eles é que tinham feito tudo.
Quando o professor  desce do trono de poderoso e detentor do saber ele oferece aos alunos a possibilidade de descobrirem as respostas para as suas perguntas, ele possibilita a emancipação intelectual, assim como mostra o livro O mestre Ignorante de Jacques Rancière, que conta a trajetória de um “professor que ensinou francês a estudantes flamengos sem lhes dar uma só lição, ele ainda se pôs a ensinar o que ignorava e a proclamar a palavra de ordem da emancipação intelectual: todos os homens têm igual inteligência.”
Miguel Massolo, psicanalista argentino, disse que “ser professor é conviver com a angústia de não dar as respostas.”
Quais as perguntas nossos alunos têm? Será que damos a chance de procurarem pelas respostas?  Precisamos experimentar ouvi-los. Dentro de uma perspectiva construtivista é a partir das perguntas deles que devemos estruturar  nossos projetos de aprendizagem.
            Na aula, conversávamos também que a medida que vamos crescendo, vamos abandonando nossas perguntas, e que quanto maior a graduação do profissional, menos perguntas ele faz, pois acredita conhecer tudo. Fomos desafiadas a refletir e pensar quais são as nossas mais simples perguntas referentes a nossa vida cotidiana e que deixamos de fazê-las. Para juntos pesquisarmos e descobrirmos as respostas para sanar nossa curiosidade.
Referências:
Rancière, Jacques. O mestre Ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual. 2ª ed. – Belo Horizonte: Autêntica, 2004. 192p. (Educação: Experiência e Sentido, 1)

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