A ESCOLA ABANDONOU AS PERGUNTAS
Na aula presencial do
Seminário Integrador III, no curso de Pedagogia à Distância da UFRGS, refletíamos sobre a ausência de perguntas na escola. Segundo Freire (1985),
o conhecimento começa pela pergunta, começa pela curiosidade. O
professor dá as respostas sem ao menos terem perguntado nada.
Os professores não se interessam pelas perguntas que os alunos têm a fazer,
pela sua curiosidade. Com seu poder e autoridade, elenca o que é importante de
acordo com o currículo pré-estabelecido e “joga” sobre o aluno, num movimento
unilateral que só vai. O professor é que fala, é que dá a aula, que dá a prova,
que dá as perguntas e que finalmente dá a nota.
Uma de nossas colegas, humildemente e admitindo certa vergonha, compartilhou
conosco uma experiência rara de sala de aula: Por motivos de saúde, ela teve
que substituir uma colega que trabalhava com um conteúdo que ela desconhecia. A
princípio, ficou aflita, perdeu sono, tentou pesquisar, mas finalmente e com
muito receio do que poderia acontecer, admitiu aos alunos que não dominava o
conteúdo e propôs a eles que aprendessem juntos. Revelou que foi uma experiência
fantástica, pois os alunos se sentiram desafiados, pesquisaram e aprenderam
todos juntos: professora e alunos. Quando a professora titular, retornou e fez
uma avaliação do conteúdo, ficou surpresa com os ótimos resultados apresentados
por aquela turma e foi perguntar para ela o que tinha feito para que os alunos
se saíssem tão bem. A colega revelou que não tinha feito nada, eles é que tinham
feito tudo.
Quando o professor desce do trono de
poderoso e detentor do saber ele oferece aos alunos a possibilidade de
descobrirem as respostas para as suas perguntas, ele possibilita a emancipação
intelectual, assim como mostra o livro O
mestre Ignorante de Jacques Rancière, que conta a trajetória de um “professor
que ensinou francês a estudantes flamengos sem lhes dar uma só lição, ele ainda
se pôs a ensinar o que ignorava e a proclamar a palavra de ordem da emancipação
intelectual: todos os homens têm igual inteligência.”
Miguel Massolo, psicanalista argentino, disse que “ser professor é
conviver com a angústia de não dar as respostas.”
Quais as perguntas nossos alunos têm? Será que damos a chance de
procurarem pelas respostas? Precisamos experimentar
ouvi-los. Dentro de uma perspectiva construtivista é a partir das perguntas
deles que devemos estruturar nossos projetos
de aprendizagem.
Na aula, conversávamos
também que a medida que vamos crescendo, vamos abandonando nossas perguntas, e
que quanto maior a graduação do profissional, menos perguntas ele faz, pois
acredita conhecer tudo. Fomos desafiadas a refletir e pensar quais são as
nossas mais simples perguntas referentes a nossa vida cotidiana e que deixamos
de fazê-las. Para juntos pesquisarmos e descobrirmos as respostas para sanar
nossa curiosidade.
Referências:
Rancière, Jacques. O mestre
Ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual. 2ª ed. – Belo Horizonte:
Autêntica, 2004. 192p. (Educação: Experiência e Sentido, 1)