quarta-feira, 8 de abril de 2015

O dia do brinquedo na sala de aula

Estabeleci com meus alunos de 2º ano, um dia da semana, para acontecer a “Hora do Brinquedo”, sexta-feira. Nesse dia, os alunos trazem brinquedos de casa para serem compartilhados com os colegas. Esse momento é muito rico, por vários motivos, um deles é a possibilidade de eu observar aspectos importantes nas relações sociais estabelecidas dentro da turma, como resolvem os conflitos, que brinquedos escolhem, como simbolizam a vida real. Observei que existem grupos por afinidade e que alguns alunos são mais resistentes em abrir a brincadeira para outros colegas. Nesse momento, minha intervenção ou não intervenção faz a diferença, para que haja a inclusão de todos e para que os alunos consigam resolver seus conflitos de forma autônoma, respeitando as diferenças e o espaço de cada um. 
O ato de compartilhar brinquedos também não é uma tarefa fácil para todos, por isso, que antes de iniciarmos esse momento, fizemos um contrato didático acordando algumas coisas: “os brinquedos que traremos serão para compartilhar com os colegas, tenho que esperar o colega brincar para depois eu poder brincar com determinado brinquedo, não posso me “adonar” de um brinquedo e não querer compartilhar com os outros, tentar negociar com os colegas, antes de ir reclamar com a professora, ninguém pode brincar sozinho.” Está dando  certo, claro que existem alguns conflitos, mas eles estão sendo resolvidos sem maiores problemas. Acredito que a minha condução desse momento contribui para que a interação e a inclusão de todos aconteça  e para que não vire um festival de fofocas. Onde eles possam resolver seus conflitos com a mínima interferência de um adulto.
Nesse dia, os alunos são liberados às 15 horas, pois acontece a reunião Pedagógica, portanto o índice de faltas é sempre elevado, pois como eles dependem dos pais para vir pra escola, muitos acham que por que é pouquinha aula, não precisam vir. Todos os dias são importantes, o grupo só funciona bem, quando todos estão em aula, toda falta representa uma lacuna física e na aprendizagem do aluno, do grupo, da turma. Além disso, nesse dia, sempre dou uma lição de casa para o final de semana, e sendo assim, muitos deixam de levar por não estarem presentes. Com o Dia do Brinquedo na sexta-feira, as faltas diminuíram, pois quando os alunos de fato querem vir pra aula, eles incomodam em casa para não faltar e Dia do Brinquedo não dá pra faltar. Assim deveriam ser todas as aulas, super interessantes, que fizessem os alunos não querer faltar. No meu planejamento, penso sempre em uma aula que os alunos possam aprender com prazer, brincando, jogando, se divertindo, conversando, se movimentando. Tenho relato de mães, que contam que os alunos não querem faltar de jeito  nenhum, querem vir todos os dias da semana, o que me deixa bem satisfeita, pois mesmo os pais tentando convencê-los de faltar eles não abrem mão de estar na aula. Saliento muito nas reuniões de pais, a importância da presença em aula todos os dias, mas alguns não dão a devida importância para isso. Claro que, às vezes, é inevitável, devido à doenças, problemas familiares, mas que seja em último caso, não podemos banalizar as faltas. Sempre que um aluno falta, no dia seguinte, pergunto o motivo, se possível, falo com a mãe na fila, para que elas entendam que toda a falta é prejudicial ao processo. Por isso procuro conquistar os alunos com aulas boas, interessantes, que promovam aprendizagens, onde os alunos possam agir,  conversar, fazer perguntas, jogar, brincar aprendendo, enfim, o aluno tem que querer vir pra escola, vir pra escola e estar na aula não pode ser algo chato em que os alunos ficam sentados a tarde inteira copiando e reproduzindo respostas.
Nesse dia, precisei levar meu filho junto comigo, devido a impossibilidade de buscá-lo às 15 horas, horário que todas as escolas municipais de Esteio liberam seus alunos, porque realizam a reunião pedagógica, com a presença do meu filho, percebi que muitos alunos observavam atentos quando eu falava com ele, curiosos para saber que tipo de relação eu estabeleço na qualidade de mãe. Lembro que eu também me interessava por saber como era a relação das minhas professoras com seus filhos. Eles nos veem em outra categoria diferente da categoria: professora. Parece-me que isso fortalece meu vínculo com eles.
Sempre procuro levar histórias da literatura infantil que trabalhem, entre outras coisas, as questões de gênero. Percebo que mesmo assim há uma divisão em brincadeira de menina e brincadeira de menino, mas muitos meninos já compartilharam brincadeiras com as meninas e vice-versa.  Eu digo pra eles que meu filho brinca de boneca, que já teve Barbie, que brinca de carrinho, que joga bola e nem por isso deixou de ser menino. Percebo o espanto em alguns, pois a sociedade, a família, a mídia, ainda apresenta preconceitos em relação a esse aspecto. Mas já percebo um movimento diferente nas brincadeiras o que é muito positivo. A história do fusquinha cor-de-rosa, que contei no ano passado (eram os mesmos alunos) tirou um carro cor-de-rosa da estante e muitos alunos e alunas brincavam com ele, pois a história trabalhava exatamente isso, o carrinho era abandonado, pois as crianças da história entendiam que carrinho era brinquedo de menino e cor-de-rosa era cor de menina e o carrinho ficava muito triste por isso.  É muito importante que trabalhemos questões de gênero com nossos alunos, para quebrar preconceitos que muitos trazem de casa, por influência da família. E o quanto nós mesmos temos que trabalhar isso em nós. Pois confesso, que fiquei insegura de deixar o meu filho brincar de boneca, só depois de uma formação com a filosofa Tatiana Meireles sobre questões de gênero que tive segurança em afirmar que não é pelo fato dele brincar de boneca que isso vai influenciar sua opção sexual, mas tive que trabalhar isso também com meu marido que dizia: “Espero que saibas o que está fazendo” quando a pedido do meu filho, comprei uma Barbie e um bebezão de brinquedo. Hoje ele nem brinca mais, até já deu as bonecas, mas no momento que em que brincava, trocava as fraldas, dava mamadeira, levava ao médico, o que indica que no futuro,  será um ótimo pai, presente e participativo. E é por isso que temos que trabalhar essas questões em sala, para que possamos contribuir com uma sociedade mais justa, menos machista onde os direitos das mulheres e dos homens sejam respeitados. Não nos preocupemos com  que tipo de brinquedo as crianças brincam, porque não é isso que determina a opção sexual de uma pessoa. 
















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2 comentários:

  1. Oi, Jaqueline como comentei anteriormente, é muito importante ensinar aos alunos a cooperação com os colegas, a ser solidário, por isto a importância do trabalho em grupo, e que ele seja bem explicado, organizado e acompanhado.
    abraços

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  2. Interessante as suas postagens, demonstram o quanto a sua prática já vem se conectando a muitas questões levantadas no decorrer do curso.
    Acredita em ti e voa!
    Tutora Isolete

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