domingo, 16 de dezembro de 2018

Id, Ego e Superego.

Freud e o Carnaval 
(Moacyr Scliar)
    Segundo Freud, que não era construtor (mas que em algum momento deve ter pensado em fazer uma incorporação a preço de custo para escapar das agruras da psicanálise), a nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo mora um sujeito simples e meio atucanado chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Estas tarefas fazendo parte da vida cotidiana, Ego até não se queixaria. O pior é ter de conviver com os outros dois moradores.
    No andar superior, decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral, vive um irascível senhor chamado Superego. Aposentado - aos pregadores de moral não resta muito a fazer em nosso mundo -, Superego dedica todos os seus esforços a uma única causa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de alguma piada boa e ri, ou quando Ego se atreve a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte: não quer festinhas no domicílio.  
    No porão, sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id. O Id não tem modos, não tem cultura e na verdade mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta estas coisas, exige que Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. E é o que acontece durante todo o ano.
No Carnaval, porém Id se solta. Arromba a porta do porão, salta para fora e vai para a folia, arrastando consigo o perplexo Ego que, num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebida, mulheres.
    Quando volta para casa, na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é o superego, olhando-o fixo da janela no andar superior. Ele não precisa dizer nada, Ego sabe que errou. Humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id retorne a seu reduto, e aí começa a penitência que durará exatamente um ano.
    De vez em quando Ego tem um sonho. Ele sonha que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco, e que, juntos, se divertem a valer - o Superego é inclusive o folião mais animado.
   Mas isto é, naturalmente, sonho. Parafraseando um provérbio judáico, Carnaval no sonho não é Carnaval é só sonho. Que se junta a todos os sonhos frustrados de nossa época. Graças a eles, muitas casas foram construídas, e muitos edifícios foram incorporados.
(crônica publicada no Caderno Vida de Zero Hora em 08.02.1991 - Em A Cena Médica. pg 2)   
Comentário:
Analisando os alunos, é possível perceber  quem é comandado pelo superego ou pelo ID. Alguns alunos SEMPRE transgridem as regras, são totalmente comandados pelo ID, impulsivos, não resistem uma travessura, eu viro as costas estão sempre aprontando, porém, quando percebem a minha presença, o superego deles já avisa: fizeram "coisa errada"  e os alunos correm para não serem percebidos. Já outros alunos são comandados pelo superego, nunca transgridem e estão sempre querendo que os outros façam o mesmo, são os "certinhos" da turma.Mas o que será que define isso? Uma educação mais controladora? Uma exigência maior dos pais ou é próprio de cada indivíduo?

O Trabalho em Grupo

  Conforme COLLARES (2008), no cotidiano da escola as conversas, risos, contrariedades acontecem nas "brechas" das atividades escolares, no entanto, elas são muito importantes nas relações sociais da turma, pois definem vínculos e possibilitam muitas aprendizagens.
     A escola precisa transgredir o silêncio, supostamente necessário para aprender, e dar espaço para a conversa, para o movimento e o barulho produtivo.
     Em minha sala de aula os alunos estão, diariamente, organizados em grupo. A troca de ideias, a conversa, o movimento são  permitidos. No centro da sala, ficam materiais coletivos (lápis, cola, tesoura, etc.) onde quando necessário, os alunos pegam emprestados. Conheço professoras que exigem que cada aluno tenha seu material, e caso o aluno não tenha, ela organiza um kit e dá para cada um, para que não precisem levantar do lugar para pedir nada emprestado, o quanto mais imóveis e silenciosos, melhor.
                    Na aula sempre deixo os conflitos e contrariedades serem resolvidas no grupo, sempre incentivo os integrantes conversarem e se entenderem, com o mínimo de intervenção possível. Desse modo percebo que eles vão adquirindo autonomia para resolverem suas questões do grupo.
Alguns professores de Projetos Pedagógicos, que também trabalham com outras turmas, relatam o quanto é tranquilo o trabalho coletivo com eles, pois  são autônomos e se resolvem rapidinho, diferentes de outras turmas que não conseguem trabalhar em grupo devido a grande dificuldades que encontram de se entenderem, os conflitos são tão grandes que impedem a realização de algumas atividades.
Para trabalhar em grupo com os alunos é preciso entender que o barulho é inevitável, que os conflitos acontecem e precisam ser resolvidos, que a proposta de trabalho não pode ser cópia do quadro o tempo todo e que o movimento é bem vindo. Muitos professores não conseguem trabalhar sem silêncio e isso é um grande motivo para não propor trabalhos em grupo.

REFERÊNCIAS:
COLLARES, Darli.  O jogo no cotidiano da escola. Revista Projeto-Revista da Educação. Ano 8, nº 10, outubro de 2008.